Tente se olhar no espelho e não encontrar algum defeito. Missão difícil, não é mesmo? Todos têm sempre alguma queixa em relação à própria aparência. Algum detalhe que incomoda e parece estar destoando do restante. Principalmente, porque os padrões de beleza impostos pela mídia e pela sociedade como um todo estão cada vez mais inalcançáveis. A partir dessa insatisfação coletiva, quem ganha é a indústria da beleza e suas constantes invenções.

Prova disso é que o mercado da estética, incluindo cosméticos, higiene e perfumaria, aparece como um dos mais promissores do país. Alimentado pela vaidade feminina e masculina, o setor faturou mais de R$ 30 bilhões entre janeiro e julho de 2019 no Brasil. Um aumento de pouco mais de 5% em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).

Para atender às necessidades dos vaidosos, o setor está sempre inovando e lançando novidades que prometem verdadeiros milagres. Um exemplo é a "pílula da beleza". A expressão é usada para definir as chamadas pílulas nutracêuticas, que contêm vitaminas, minerais, aminoácidos, óleos essenciais, probióticos e outras substâncias.

Pílulas da beleza prometem resultados milagrosos

As pílulas da beleza têm como principais benefícios o poder antioxidante, a função de hidratação da pele e o estímulo das fibras de colágeno. Essa combinação promete melhorar o aspecto da pele e prevenir o envelhecimento precoce. Também existem pílulas para fortalecer cabelos e unhas e combater a celulite e gordura localizada.

Apesar de apresentarem benefícios para lá de sedutores, as pílulas não são totalmente inofensivas para algumas pessoas. Mulheres grávidas, por exemplo, precisam tomar cuidados específicos. Por isso, é extremamente importante que as cápsulas sejam administradas com a supervisão e recomendação de um profissional. Nutricionistas ou dermatologistas podem receitar a substância de acordo com a dosagem necessária para cada paciente.

Mas, e quando a insatisfação com alguma parte do corpo não pode ser curada apenas com a ingestão de medicamentos e vitaminas? Há muito tempo, as intervenções cirúrgicas voltadas para a estética deixaram de ser “artigos de luxo” para poucos. O Brasil é um dos países líderes em número de cirurgias plásticas.

Entre 2009 e 2018, o número de cirurgias estéticas aumentou de 459 mil para mais de um milhão. Por aqui, a cirurgia estética mais realizada em 2018 foi o aumento das mamas, seguida da lipoaspiração, que ficou em segundo lugar no ranking. O levantamento foi feito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Número de cirurgias plásticas tem aumentado consideravelmente no país

Padrões x realidade

Toda essa sede por mudar e aperfeiçoar características estéticas vem, quase sempre, de padrões de beleza instituídos há décadas na sociedade.

Concursos de beleza, por exemplo,  reforçam a ideia de que a magreza é imprescindível para ser bonita. Até bem pouco tempo, era praticamente impossível encontrar modelos acima do peso considerado ideal em capas de revista. Além disso, a combinação de retoques digitais, ângulo e luz em imagens vendem uma perfeição inexistente na vida real.

E como se não bastassem as modelos e atrizes “perfeitas” que aparecem na televisão, nas revistas e nos anúncios, as redes sociais fizeram surgir uma nova categoria: as influenciadoras digitais. No instagram, mulheres que vivem uma rotina de intensa malhação, alimentação regrada e procedimentos estéticos inspiram suas seguidoras ao ostentarem corpos definidos.

O problema é quando essa inspiração torna-se uma obsessão. Nesse caso, homens e mulheres que vivem realidades bem diferentes das celebridades sofrem por nunca conseguirem alcançar as qualidades que tanto admiram em outras pessoas. Aí, o jeito é recorrer a procedimentos, muitas vezes, considerados até perigosos.

O preço da vaidade

Os números já mostraram que para muitas pessoas a vaidade não tem limites. Mas, nem sempre, o preço pago é em dinheiro. Procedimentos estéticos e cirurgias realizadas sem a devida segurança e com profissionais não autorizados já resultaram até em morte de pacientes.

Em julho do ano passado, a morte da bancária Lilian Calixto, de 46 anos, ganhou repercussão no país. Ela não resistiu depois de complicações causadas por um procedimento para aplicar silicone nas nádegas, no Rio de Janeiro. O médico responsável, conhecido como Doutor Bumbum, chegou a ser preso por homicídio doloso.

Outro caso de grande repercussão foi o da apresentadora Andressa Urach. Ela foi internada com uma grave infecção causada pela aplicação de hidrogel.

O produto é usado para aumentar o volume em regiões do corpo como o bumbum e as coxas. Também é usado para o preenchimento de linhas e rugas no rosto e no pescoço. Há risco de o produto ser injetado perto de um vaso e comprimi-lo. Isso pode interromper o fluxo de sangue e causar uma necrose da pele. Também há risco de o produto comprimir um nervo importante, provocando dores fortes.

Outro risco é que o produto seja injetado dentro de um vaso sanguíneo. Isso pode levar a uma trombose e à necrose da pele no local. Em casos extremos, pode provocar uma embolia pulmonar ou até cerebral, e levar à morte.

No caso de Andressa Urach, por causa das complicações, a modelo foi submetida a uma drenagem cirúrgica, procedimento que freia a infecção. Ela ficou em estado grave, respirando com ajuda de aparelhos. Na época, imagens divulgadas na internet dos ferimentos abertos nas pernas de Urach impressionaram os internautas.

Posso ser indenizado?

Quando há comprovação de que uma cirurgia plástica deu errado por causa de erro médico, é possível acionar a Justiça. Nesses casos, um advogado pode orientar o que o cliente precisa fazer e que provas precisa reunir para entrar com um pedido de indenização.

Um exemplo famoso de indenização por um procedimento que não teve o resultado esperado foi o de um cirurgião que teve que pagar R$ 20 mil de indenização a uma paciente que ficou com os seios deformados.

No caso, os desembargadores entenderam que o cirurgião plástico assume a obrigação de resultado em procedimentos estéticos. Ou seja, as fotos apresentadas pela vítima comprovaram que os seios ficaram irregulares e com cicatrizes, totalmente diferentes do que ela esperava.

Perfeição inalcançável

Também há quem recorra às mesas de cirurgia para ficar semelhante a alguém que admira. São famosas, por exemplo, as histórias envolvendo Ken e Barbie humanos. Nesses casos, homens e mulheres se submetem a dezenas de procedimentos para ficarem cada vez mais parecidos com os bonecos.

O brasileiro Rodrigo Alves já realizou dezenas de procedimentos, entre liftings e correções. Ele chegou a ter uma deformação no queixo por conta de uma infecção.

Rodrigo Alves é famoso por fazer procedimentos estéticos para tornar-se um ‘Ken humano’

Outro brasileiro que também se submeteu a várias intervenções para parecer um boneco humano foi o estudante Celso Santebañes. Ele investiu cerca de R$ 30 mil para fazer uma rinoplastia e em intervenção plástica no queixo e no maxilar para ficar com o rosto do Ken. Celso morreu em 2015, após uma batalha contra o câncer.

Na contramão da perfeição

Na contramão dos padrões de beleza tradicionais, algumas celebridades e influenciadores têm usado o espaço na mídia e nas redes sociais para incentivar a aceitação e o amor-próprio.

Os procedimentos estéticos e as cirurgias, se feitos com profissionais legalizados, jamais serão vilões. Mas, para essas pessoas, é importante quebrar a ideia de que só há beleza em corpos magros e rostos perfeitamente simétricos.

Dentro dessa lógica, ao invés de tentarem se encaixar em padrões pré-estabelecidos, as pessoas devem aceitar as próprias condições de seus corpos e valorizarem a beleza que há neles. O recado é: se amar e respeitar o próprio corpo!